No rastro da apuração das eleições americanas, que se desenrolou ao longo de vários dias em um ambiente de elevada polarização partidária e ideológica, resta o esforço de entender o sentido dos resultados. As circunstâncias extraordinárias ampliaram a incerteza: esta será lembrada como a eleição da covid-19, e a pandemia representou o maior desafio às chances de um segundo turno de Donald Trump.
Seu adversário, Joe Biden, era tão somente o candidato anti-Trump — ele não apresentou propostas claras para uma alternativa ao governo atual. Pode-se argumentar que Biden está mais próximo de um conservador do que da imagem de democrata moderado a que costumam associá-lo. Deixando de lado as fragilidades do candidato democrático, esta análise se concentrará em como Trump complicou sua própria reeleição.
A pandemia de covid-19 alterou substancialmente os prognósticos. Trouxe consigo uma dificuldade significativa de avaliar a campanha dos presidenciáveis, tendo em vista que nos privou de qualquer referência do comportamento de eleitores em uma situação tão atípica. Além disso, a crise econômica que se sucedeu às medidas de distanciamento social adotadas para conter o alastramento do novo coronavírus acertou em cheio uma das bases do apoio a Trump.
O primeiro erro: a resposta à pandemia
Seu primeiro grande equívoco, e o de maior repercussão, foi a inacreditavelmente inepta resposta à pandemia. Segundo pesquisas do instituto Gallup, Trump sofreu ao longo do seu mandato com os mais baixos índices de aprovação — jamais chegou sequer a 50%, feito inédito para um presidente americano. Em março, quando conseguiu ao menos projetar a imagem de liderança empenhada no combate à pandemia, sua aprovação atingiu 49%.
Sua estratégia de desviar a culpa lhe trouxe os piores resultados possíveis. A omissão na formulação de políticas de contenção do vírus e a falta de uma resposta coordenada no nível da União comprometeram a capacidade de mitigar os efeitos da covid-19.
O segundo erro: falta de apoio econômico
O segundo erro crucial de Trump foi sua incapacidade de fornecer apoio econômico contínuo na forma de assistência governamental, em meio à maior recessão desde a Grande Depressão dos anos 1930.
O terceiro erro: a estratégia contra Biden
A insistência de Trump em focar nas alegações não comprovadas de negócios sombrios entre Joe Biden e seu filho, Hunter, tampouco rendeu dividendos.
O quarto erro: não explorar as fraquezas de Biden
Por outro lado, Biden era muito mais suscetível a ataques a suas posições políticas anteriores sobre questões que foram essenciais à vitória de Trump em 2016.
É precipitado supor que Trump foi derrotado de forma definitiva. Mais que a derrota em si, sua mais dura lição será reconhecer que foi vencido pelos próprios erros.
Enquanto a apuração nos estados mais disputados elevava a tensão no país e no mundo, Trump demonstrava dificuldades em aceitar a derrota.
